quarta-feira, 21 de junho de 2023

Um corpo sem alma

Desde a primeira vez que assisti a um filme de zumbi, o pequeno Matheus já se interrogava acerca da união entre corpo e alma. O que acontecia com as almas cujos disformes corpos reanimados cometiam atrocidades aqui na terra? E como poderiam os corpos se mover, se suas almas já não mais os habitavam? E, se ainda os possuísse, tais almas, no mínimo, estariam igualmente deformadas.

Tudo bem... É apenas uma ficção de cinema industrial. Contudo, não muito depois, também me perguntava sobre o estado da alma em corpos vegetativos, como aqueles pós-trauma cerebral, sustentados por máquinas e poucos estímulos. Se o corpo só se move com a alma, onde repousam tais almas? É justo que uma santa alma seja condenada pelas atrocidades de seu corpo “zumbificado”? O que resta para a alma de um corpo em estado vegetativo? Ou essas almas se separam do corpo, levando consigo seus pensamentos, ou se definham junto ao mesmo. No primeiro caso, o corpo continua a respirar sem influência da alma enquanto, no segundo, podemos admitir que uma alma não engloba pensamentos.

Uma sincera dúvida ainda permanece: o que acontece com a alma nestes corpos? Ela vai para outro plano e retorna? E como o corpo continua vivo se ela trocou de plano?

terça-feira, 20 de junho de 2023

Meritocracia

Você é livre para gostar ou não da meritocracia e acreditar que alcançou o sucesso pelo seu esforço. Apenas acho que é de tamanha crueldade julgar que o pobre é pobre por falta de talento. Duvido muito que Jesus culparia os pobres por sua miséria. Em verdade penso, se não estou enganado, que Ele iria ao seu resgate.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Sobre ser adulto e amadurecer

Ficar adulto é curioso. Estava relendo alguns textos deste próprio blog, textos que refletem uma mente adolescente que, embora atordoada, não tinha medo de se expressar. A fase adulta (ao menos a minha) traz o lamento e a desistência de sonhos: o encarar da realidade que desmancha aspirações mais jovens. Tudo isso é uma forma bem reduzida do que dolorosamente significa amadurecer. E até mesmo no amadurecimento existem desigualdades invisíveis, frente àqueles que possuem privilégios psíquicos sem ao menos se dar conta ou valorizar. Ser adulto e amadurecer significam nada além disso: crescer e enlouquecer entre os sãos. Reconhecer fragilidades que nem sempre existiram e que, muito provavelmente, foram criadas por si próprio — um fatídico e irônico mecanismo de autodefesa.

É curioso pensar que existem muitos adultos que ainda são crianças, relutam para manter suas estruturas infantis de interpretação dos fatos, relutam a enxergar a si mesmos e àquilo que está tão óbvio e claro à sua frente: jamais! É preferível infringir tormento a todos em seu redor a reconhecer sua clarividente tolice. Possuir a imbecilidade em seu mais alto nível é o que procuram tais infelizes almas: resistir a encarar os fatos, resistir ao evidente, ou melhor, resistir ao amadurecimento.

Ser adulto e amadurecer, portanto, envolvem essas irônicas vias de construir adultos totalmente distintos e despreparados para a vida. Adultos que não se percebem adultos; adultos que evitam ser adultos; adultos que deveriam ser adultos; adultos que infelizmente são adultos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Otimismo

O otimismo, olhando de fora, parece uma espécie de estabilidade mental. No entanto, é um profundo grito de desespero diante de uma realidade da qual suplicamos por fugir, um grito que ecoa pelos solitários corredores do universo com a ainda mais triste esperança de talvez ser ouvido por um Deus, que se mantém em insensível silêncio.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Conclusões bíblicas

Sofro, logo existo. Da dor nascemos, na dor vivemos e na dor morremos. Deus quis assim.

É muito injusto os teólogos atribuírem a nós a culpa pela dor e pelos males terrenos — mesmo quando dividem a autoria com Satanás. Biblicamente e teologicamente, o sofrimento é consequência da desobediência humana, uma vez que nos deixamos seduzir pelo mal, na pele de nossos primeiros ancestrais, Adão e Eva. E ainda há dogmas dos quais não podemos negar:

1. Deus permite o mal.
2. Deus permitiu a existência de Satanás bem como de suas ações.
3. Deus é onipotente e suprainteligente. Deus não é mongoloide.
4. Deus e Satanás fazem das nossas almas um cassino de apostas.
5. A dor é um mecanismo cerebral inato.

Não precisa ser formado em Neurociência para notar que já nascemos propensos a sentir dor e sofrer. Um bebê é responsável por nascer chorando? Como podemos ser culpados por algo que já nasce conosco, que é intrínseco à nossa constituição biológica? — a qual, inclusive, foi projetada por Deus. Se seu filho nasceu com diabete, ele tem culpa por isso? Faz sentido herdarmos as consequências do “pecado original”, do delito de um ancestral? Seu tataravô matou alguém, é você que vai preso?

Deus é tão arrogante que, sob a premissa do livre-arbítrio, culpou-nos pelo fracasso de seu projeto e, não satisfeito, ainda colocou o sofrimento como passaporte para uma salvação tediosa — que, conforme interpretações bíblicas, consiste em passar a eternidade louvando a glória de Deus, almas livres acorrentadas a orar eternamente.

Além da onipotência e onisciência, a tradição medieval também defende, como atributos de Deus, a onipresença, da qual se deduz a equidistância de Deus em relação ao tempo, isto é, Deus observa com clareza o passado, presente e futuro simultaneamente. Tendo tamanhos atributos e diante do sofrimento e da atual podridão humana, prefiro inferir que Deus é oninegligente a concluir que Ele não teve visão de longo prazo na concepção do universo ou que simplesmente sente prazer em disputar nossas almas com Satanás.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Imposição da Revivência

Se não me engano, apenas um contrato importante (RioCard da Vanguarda) joguei fora. Os demais eram contratos diários dispensáveis. E caso algo importante tenha sido descartado, devo lembrar que atividades, jornadas e recompensas é o que não falta em Destiny 2. Preciso aprender a lidar com a perda/frustração/imperfectibilidade com leveza e naturalidade. É normal e está tudo bem não captar a totalidade fenomenológica (detalhes e experiências) dentro de um game, ainda mais se tratando de Destiny. Reflita com leveza e carinho.

Do sentimento de não suficientemente ter absorvido o conteúdo oferecido (que modestamente chamamos de aproveitar/experienciar um jogo, filme ou série), vem o sentimento de culpa, do qual suscita a “necessidade” de criar uma nova conta, zerar novamente ou reassistir/reler diálogos, clipes e cutscenes. E tal culpa insistirá em fisgar a consciência até que a revivência do que já foi vivido seja imposta (reciclagem fenomênica). E em meio a relutância, o caótico ciclo do desespero se instaura.

Como evitar tal ciclo? Como lidar com a fisgada da culpa? Há o que se culpar?

A culpa vem de um sentimento de desconformidade. O sentimento de que eu não estava agindo da maneira certa. No caso, não aproveitando quanto deveria ou não prestando a atenção necessária. O sentimento de que eu estava desperdiçando, o medo de perder farelos, a sufocante necessidade de absorver totalidades.

Cabe ressaltar que está longe de constituir uma necessidade e, sim, mais próximo a uma irracional obrigação à qual sempre me imponho. Vale a pena se obrigar a algo que, se não beira o impossível, ao menos exigiria forças além do meu confortável/saudável alcance? E quando, por razões tanto óbvias, não cumpro (correspondo ao exigido), é justo me culpar?

terça-feira, 28 de maio de 2019

Pessimismo e Otimismo: ilusões da inércia

Ultimamente, lendo alguns trechos de cartas pessoais de Freud, realmente me admirava acompanhar a mordacidade de seu pessimismo. Dava prazer de ler palavras tão vivas, tão carregadas de experiência, poucas palavras que socavam o estômago dos desavisados e refletia a vida daqueles que já perderam a confiança no futuro.

Já C. S. Lewis? Até pouco tempo eu o tinha como um bonachão. Deixou-se seduzir por Deus e logo começou a ver cor em tudo. E é comum considerarmos as formas coloridas o caminho mais fácil. Até que também tive a oportunidade de ler trechos de cartas da sua juventude 
— época em qual ainda era ateu. Impressionou-me notar nas palavras do jovem Lewis o mesmo peso existencial trágico dos socos de Freud. Ressalto, ainda, que, mesmo nas cartas mais íntimas, nossos paradoxos internos e os sentimentos mais profundos e distantes se mantêm fugazes. É muito difícil entender o que sentimos e, mais ainda, expressá-lo sem contradições.

Ler trechos da fase pessimista desses grandes autores e pensadores me fez lembrar este blog. Um adolescente mimado de ensino médio chorando em pesadas palavras por um mundo cruel e injusto. Quer escrever bem? Quer fazer um texto foda? Seja pessimista. Os autores que mais nos impactam são justamente aqueles que sabem fazer tragédias desesperadoras de suas próprias palavras. Pensei em citar alguns filósofos, mas a maioria dos Modernos e Contemporâneos compartilham do mesmo hábito literário: o drama existencial. Tudo isso me fez notar que o pessimismo é tão ilusório quanto colorir o mundo de boas crenças e que, sendo pessimista, pensando positivo, ignorando suas dores mais profundas ou colocando tamanho peso existencial em cada experiência, de qualquer modo, chorar pela realidade não faz dela menos trágica nem menos suportável. O pessimismo ou o otimismo são igualmente alienantes, rotas mais fáceis que nos confortam na dor. Difícil mesmo é encarar a realidade, manter-se erguido, acreditar e fazer alguma coisa para mudar.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Um texto e uma vida sem conclusão

Há vinte anos atrás, eu nasci. Fui crescendo e aprendendo a viver. Quantas formas de vida me foram empurradas? Quantos desejos me foram vendidos? Quantos sonhos, quantas mentiras... Assim como eu, tenho certeza que todas as pessoas nascem sem nada saber da existência. Nascem sem conhecer seus propósitos, sua missão ou seu lugar neste mundo ― se é que nascemos com algum. Todos nós nascemos vazios e passamos o resto da vida buscando preencher o que nem sabemos e, mesmo assim, insistimos em fingir saber das coisas. Conversamos como se soubéssemos o significado e a origem das palavras que usamos. Compartilhamos, curtimos e comentamos como se houvesse algum propósito nisso. Damos opiniões, avaliamos as atitudes dos outros, julgamos escolhas... Opinamos e fingimos ter certeza das coisas, presunçosamente convictos de que isso irá mudar o rumo do mundo. Elegemos candidatos que mal conhecemos. Lemos matérias e notícias suspeitosas. Passamos mais da metade da vida forçando nossos olhos, multilando nossa sanidade para absorver conteúdos que, logo mais, nos trairão ― isso se chama conhecimento. Compramos ― literalmente compramos ― mentiras. “O que você será no futuro?” ― aí reside a mais desumana fraude vendida a uma criança.

Pior do que vender falsos sonhos e conquistas vazias, é vendê-los com orgulho. E, claro, pôr no orgulho a veste de educação, para manter o ego intacto. Essa é a sociedade, assim é a humanidade: (1) seres humanos nascem sem nada saber; (2) vendem o não-saber para você; (3) você obviamente fracassa tentando praticar o que não sabe; (4) por fim, lhe culpam pelo fracasso. Fracassados, culpados e sem propósito, corremos atrás de preenchimentos vazios ― como religião, drogas e sexo. Pronto. Já entramos no ciclo vicioso da história da humanidade: comprar mentiras [formas de existir] e lançá-las ao combate para ver qual é mais convincente.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Nunca experimentamos o presente


Estamos sempre ansiosos com o futuro e insatisfeitos com o passado. E o presente? Sempre perdido e confuso entre essas duas instâncias mais frustrantes. O presente, pura espontaneidade, é sensível; jamais processado pelo cérebro enquanto tal. A partir do momento em que o presente é sentido, já é passado quando suas informações alcançam a mente. Sempre o presente é processado como passado no cérebro, o qual, a partir do mesmo, concebe e projeta vivências irrealizadas no presente como futuro.

Mais radicalmente, há apenas pretérito circulando pelos neurônios. Não experimentamos o presente nem mesmo o futuro. Vivemos sempre acorrentados biologicamente ao passado.

Menos radicalmente, a memória arquiva o passado, a mente processa suas informações, a imaginação concebe futuros possíveis irrealizados e ao presente resta apenas o inconsciente ― aqueles sentidos obscuros dos quais não temos controle.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Última carta para Deus

Senhor Deus,

Já perdi a capacidade de conduzir pensamentos apenas pelo processamento interno independente da mente. Desaprendi a orar. Desaprendi a discernir quais pensamentos são conclusíveis e quais são signo do caos. Desaprendi a pensar. Desaprendi a sorrir. Desaprendi a viver. Desaprendi e desaprendi. Minha vida, pelo menos aos últimos dias ou estes como efeitos de uma longa linha causal desde o meu nascimento, tem sido puro desaprendizado. Tenho a intuição de que, pelo menos até 2015, minha vida tem sido uma louvável esponja, uma intensa absorção ordenada de conhecimentos incessantes. Já a partir dos anos mais recentes, essa esponja se rasgou. Os pedaços... Já não sei onde estão. O conteúdo destes pedaços se encontra ainda mais confuso. Meus atos, meu modo de agir, minha postura diante de tudo que observo, minha postura diante do que aconteceu, do que acontece e do que acontecerá, minha postura mudou. Eu não entendo tudo, não entendo nada. O Senhor sabe de tudo que estou falando. O Senhor acompanhou cada pensamento meu, cada ação, cada decisão e o desenrolar destes elementos ao longo da minha vida. É por isso que estou aqui, perdido, confuso, descrente, crente, triste, feliz, incerto, com medo, insatisfeito, tentando paciência, externamente contraído, interiormente barulhento. Eu não sei: expressão frequente em cada intérmino de pensamento, expressão intensamente recorrente, expressão da qual não consigo me libertar, signo de uma incapacidade adquirida. Não sei: a mais frustrante das desesperanças.

Por que parei de rezar o  terço? Por que tenho medo de falar o que penso em primeira instância? Por que me freio tanto? Por que acabei de esquecer o que antes pensei? Por que estou tão preocupado em encontrar respostas? Venho a culpar a ausência de respostas, esta o suposto fardo que me impede de viver. Será que com todas as respostas seria mais fácil viver? O que preciso para viver? Questões me atormentam, me travam, bloqueiam, impedem-me de seguir andando. Questionar já é olhar para trás. Avançar de olhos vendados é risco, certeza de problemas. Olhar para trás a fim de evitar os problemas dos passos livres e despreocupados é também problema. Dilema. O que fazer? Qual decidir? Ainda bagunçado, porém intuitivamente compreendido. Elementos pontuais, dispersos pela memória consciente e inconsciente. A vida segue em contínuo dilema.

No lugar de tantas questões, uma emerge sobre todas: o que o Senhor quer de mim? “Amor” ― diz o Senhor. Tudo bem, me contentarei com tal resposta. Deus fala por meio de sinais misteriosamente sutis. “Amor”, tarefa difícil essa que Deus me propõe. “Amor”, como amar? Por quais caminhos amar? Com quais palavras amar? Com quais pensamentos amar?

Matheus, você realmente está escrevendo para Deus esta carta? Ou está pensando em postar no blog? Postar diretamente nestas palavras ou adaptá-las? Adaptar, aproveitar miúdos, perverter sua fé para ganhar fama?

Ora, o que faço? Escondo-me, mais uma vez? “Faça aquilo através do qual o amor seja mais explícito” ― talvez diz o Senhor. Momento blasfêmia, também talvez. Entre blasfêmias e versículos, entre heresia e fé, entre incerteza e certeza se encontram os leigos cristãos. Se há cristãos certos de seus caminhos, não os invejo: observo de longe. Já a mim? Sempre me encontrei entre nos entres. Certamente não escolhi ter este tipo de estrutura mental-espiritual indecisa.

Juro que acabei de perguntar: “Deus, posso postar este texto?”. Na ausência da resposta ― da qual Deus não tem culpa nenhuma, pois não estou aqui para questionar seus desígnios ―, pensei: “O que Jesus faria? Jesus postaria este texto?”. Uma intuição me diz que é melhor preservá-lo. No momento certo, minha alma será exposta ao mundo: não agora. “Paciência” ― Deus me diz. Vou confiar em ti, Deus. Muito obrigado por estar aqui. Amém.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Cultos e Burros

Por que os cultos nunca querem discutir sobre aquilo que muito sabem? Será medo de descobrir que não se sabe? Será orgulho a não perceber que o que tanto se sabe se forçou saber?

De qualquer modo, os cultos querem negar sua própria natureza: o ser humano nasce burro e morre não tão diferente disso. Aliás, o burro é um animal que não se preocupa com o saber e, portanto, não precisa fingir que sabe. Ele também não se frustra quando a realidade não condiz com suas especulações pessoais disfarçadas de conhecimento. Muito menos sente a necessidade de impor seu modo de pensar ao pasto diante da incapacidade de aceitar que talvez o erro seja seu e não do pasto.

Nesse sentido, o burro é muito mais tolerante e maduro do que muitos militantes de esquerda e de direita, cultos e intelectuais.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sexualidade e Castidade

1. Ao longo do tempo, tenho observado que o amor é a centralidade das nossas ações. Deus é amor e, por Sua própria vontade, convida-nos a amar a todo instante.

2. Sexualidade entendo por "motor psíquico" que conduz todas as nossas relações: amizade, matrimônio, sacerdócio, professor-aluno... É um termo complexo em Psicologia e ainda mais impalatável a alunos cristãos ― como eu, cristão cético e teimoso aluno.

Quando conduzimos nossa sexualidade apenas pela moral (“obediência”), isso gera problemas. Quando a conduzimos apenas pelos impulsos (“desejos carnais”), isso também gera problemas. Logo, entre a moral e os impulsos, nós (seres de alma e corpo) devemos pôr o AMOR como condutor de nossa sexualidade e das nossas ações.

Exemplo: não devo cultivar castidade apenas por obediência (ou por questões morais) tampouco me render aos impulsos carnais. É por amor que devo caminhar! Por amor a Deus, por amor a mim mesmo e por amor ao próximo que devo ser casto.

Fico com o pé atrás de quem tem muita moral e pouco amor. Já fui alguém que compulsivamente “moralizava” tudo. Com o tempo, percebi que “o amor é o pleno cumprimento da Lei” (Romanos 13, 8-14. Bíblia Sagrada). Vejo muitos padres, pastores e teólogos que tem o discurso carregado de palavras moralmente impecáveis e pessoalmente insensíveis. E pregar a verdade sem amor também é pecado. É aí que notamos alguns raros missionários que conseguem sensibilizar suas palavras com maior proximidade aos fiéis.

Se bem percebermos, Cristo pregava a Boa Nova fitando os olhos de seus ouvintes. O que isso quer dizer? Que Cristo era sensível e falava de perto. Posso estar muito enganado, mas sinto que muitos padres e pastores falam de Cristo com enorme distância. Moralmente impecável, pessoalmente distante.


Portanto, ver a sexualidade pela ótica da moral é observá-la de longe. Ver a sexualidade pela ótica carnal é rebaixá-la. Sinceramente tenho poucas respostas e pouquíssimas certezas sobre a sexualidade, porém intuo que deve ser analisada na vivência, mais de perto, com amor.


Recomendação de leitura:
Os padres e a sexualidade na visão de um Psicoterapeuta
http://www.vidapastoral.com.br/artigos/ministerio-presbiteral/os-padres-e-a-sexualidade-na-visao-de-um-psicoterapeuta/

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Ser humano é ser negligente

Continuo com minha posição de que conclusões são impossíveis. E com esta posição, infelizmente, refuto também a lógica. Mesmo refutando-a, continuo crendo na causalidade.

Enfim, sei que está cedo demais para “concluir” posições. Infelizmente, questionar a conclusão também me faz questionar Deus.

Questiono, ainda, se há permanência na personalidade e se de fato escolhemos agir. De certo modo, não escolhi pensar em tais questionamentos tampouco escolhi possuir a capacidade de questionar qualquer coisa.

O único problema é que questionar tais pontos me impede de dormir. Por mais que eu pesquise e pesquise todos os dias de distintas formas em distintas fontes, nunca encontro respostas.

E me parece que sempre ao dormimos optamos por desistir das questões. E como dormir é natural, parece-me que também é natural fingir que encontramos respostas apenas para nos sentirmos psicologicamente mais confortáveis. Portanto, é a negligência que nos move. E, desculpe a sinceridade: o que mais observo no mundo e em toda a História é negligência.

Por fim, você pode ter se ofendido com a última frase ou achar que sou louco, mas, de certo modo, ser humano é ser negligente. Também, você não precisa concordar comigo, até porque nem eu sei se concordo com as palavras deste texto.

sábado, 24 de junho de 2017

Niilismo Mereológico

Atomistas afirmam: “só existem átomos metafísicos.” Todo arranjo destes átomos é apenas reorganização mental. Portanto, não existem composições nem arranjos.

Você (que é um ser-humano, um conjunto de células, um conjunto de moléculas, um conjunto de átomos) não existe.

Então, pergunto-lhe: você realmente não existe? O que são seus pensamentos? Arranjos atômicos?

Não, pensamentos não existem. O que existem são rearranjos elétricos de partículas subatômicas nos neurônios ou, mais fundamentalmente, apenas rearranjos de átomos metafísicos.

O que são átomos metafísicos? As partículas mais fundamentais da realidade e somente estas existem.

Ainda assim, repito: seus pensamentos não existem? Se existem, existem numa subcategoria ontológica menos fundamental. Portanto, meu pensamento existe em certo grau de existência, mas não existe no grau (ou categoria) mais fundamental.

Em suma, não existimos.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Impossibilidade Conclusiva


Não precisamos de muito desenvolvimento lógico para perceber que tal asserção acima é, por si só, incoerente e, de certo modo, inconclusiva. Ou seja, esta frase é logicamente impossível.

Embora seja de fato incoerente, a impossibilidade de se concluir qualquer coisa não é apenas muito frequente em nossa vivência, como é justamente a maneira como nossa mente se move. Ou seja, é justamente por nunca conseguirmos concluir algo que conseguimos perpetuar o pensar. Em outras palavras, não concluir é o motor indispensável para sempre pensarmos.

Se, por acaso, conseguíssemos concluir todos os nossos pensamentos, por qual razão continuaríamos a pensar? Se alcançamos o êxtase absoluto, por que buscar novas formas de prazer? Se alcançamos todas as respostas, por que continuar a responder? Isto é, para que questionar caso todos os questionamentos já apresentassem soluções completas? No mínimo, não é isso o que vivemos. Vivemos mais ausência de respostas e multiplicidade de questões do que abundância daquelas e simplicidade destas.

Veja bem: sempre que concluímos qualquer pensamento, abdicamo-nos de algum contraponto. Há sempre algo que não foi considerado ― ou porque esquecemos, ou porque desconhecemos. Não há como abordar tudo o que já pensamos e tentamos compreender num só pensamento compreensível. Talvez por uma limitação humana, talvez por uma limitação epistêmica ou até mesmo por uma limitação metafísica... Não sei. Fazer uma metapergunta do ato de perguntar é tarefa um tanto árdua e, certamente, inconclusível. Todavia, fazer metaconclusão da conclusão não é tão distante quanto parece.

Se pressupormos que concluir é, em si, uma síntese (um enxugamento do todo compreendido), não é absurdo concluir que é impossível concluir. Ora, concluir é resumir tudo que foi problematizado anteriormente, seja num texto, seja num pensamento. Para resumir, é necessário cortar e todo corte torna algo descartável.

Peguemos o exemplo do texto. Ao escrever um texto ― assim acontece comigo e, supostamente, contigo também ―, pensamos em inúmeras palavras, organizamo-nas de diversas maneiras distintas e buscamos a forma mais “agradável” e “coerente” de pô-las no papel. Ou seja, ao longo do percurso, selecionamos palavras e descartamos muitas outras; selecionamos pensamentos e abandonamos muitos outros. Logo, o pôr no papel seria concluir e a seleção de palavras e pensamentos seria as premissas que foram postuladas.

É impossível, a partir de nossa mentalidade finita ― e, consequentemente, uma lógica também finita ―, abordar todas as premissas possíveis para uma conclusão perfeitamente concluída. Em toda conclusão, algo permanece inconcluído. Logo, tudo é conclusível, mas nada é concluído. Se tudo fosse concluído, não restaria conteúdo para uma futura conclusão. Portanto, para se concluir, para ser conclusível, é necessário e inevitável que sempre falte algo na conclusão, de tal modo que o movimento conclusivo (o movimento do pensar) se mantenha sempre movente, em constante e ininterrupto metamovimento.

Perdoe-me a redundância, mas é necessária para compreendermos: para que um movimento seja movimento, ele necessariamente precisa ser movente, mutável, flúido, constante, perpétuo, ininterrupto. Da mesma forma, a conclusão, para se manter conclusível, necessita se manter inconcluída. E, por fim, concluo que é impossível concluir.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Arrogância e Sabedoria

Por que, em enorme frequência, conhecimento e apropriação de opinião amplamente aceita geram arrogância? Será que saber mais lhe torna superior àquele que sabe menos? E se de fato lhe tornasse superior, isso lhe daria “direito” de desdenhá-lo?

Daí podemos distinguir conhecimento de sabedoria. Assim como Sócrates, Cristo e Gandhi, o sábio tem a maturidade de dialogar de igual para igual (respeitando a dignidade do interlocutor, a qual independe de sua ignorância ou sapiência), sem ter de recorrer à arrogância (ou ao ego de superioridade) para transmitir (ou, neste caso, impor) seu conhecimento.

Busquemos “saber” menos e respeitar mais.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Confusão, Opinião e Imobilidade

Desde quando o direito à liberdade de pensamento e expressão lhe dá capacidade de opinar?

Há uma confusão ― grave e amplamente aceita e reproduzida ― entre preferência [pensamento particular restrito à emoção] e opinião [noção de verdade, ao menos, razoavelmente fundamentada]. Não há problema na ocorrência da confusão, pois afinal: quem de nós possui impulsos ordenados?

Todavia, o problema surge quando a consciência não se dá conta de que a confusão é uma confusão. Isto é, a confusão se reproduz de tal forma na carência de consciência que passa a se mostrar como fenômeno comum ― negligência essa que comodamente não estabelece critérios tampouco questiona a formulação dos próprios pensamentos ou a “importação” de pensamentos externos. Desse modo, comumente, também, preferência e opinião se mostram como sinônimos.

Não é à toa que a falta de consenso nas discussões políticas brasileiras imobiliza transformações sociais realmente efetivas. Enquanto ainda partimos de emotividade ― camuflada de autoafirmação ― para “reivindicar” direitos ao meu grupo e não a todos os grupos, sem dúvida, nossa sociedade permanecerá imóvel no caos.

E ainda, parece-me que quem mais pensa buscar a superação deste caos mais confortável se sente na permanência do mesmo, no simultâneo passo em que a própria atitude de “mudanças” inabilita as mesmas.

domingo, 27 de novembro de 2016

Formando um Presente Feliz

Confesso que este foi um dos textos mais difíceis de sair do meu ser, até porque deveria partir do verdadeiro eu ― o que realmente complica muito. Também porque a vida, desde o prolongar das decorrências até o surpreender dos imprevistos, tem sido algo difícil de definir. Contudo, é justamente nisso onde erramos gravemente: rotinizamos a vida a ponto de nos privar dos imprevistos. Gastamos toda nossa potência de agir com o fim de a tudo controlar, tentando fazer com que tudo corresponda com nossos planos... Porém nos esquecemos de que 95% do Universo se trata de pura incerteza ― me refiro aqui à sua composição, dentre qual somente 5% é atômica e todo o resto, “escuro”. Como controlar o incerto? Ou melhor, para quê controlar?

À beira de uma grande decisão, de um grande momento ― como este, transição para uma nova vida acadêmica ―, nos desesperamos. Nos desesperamos porque nem tudo, ou melhor, quase tudo está fora de nosso controle. Nos frustramos pelas metas inalcançadas, pelos objetivos fracassados. Será que somos exigentes numa medida maior que nossas forças? Ou será que temos medo de reformular metas, objetivos, rotinas e vidas? Não sei. Pouco importa também. O que importa é que carregamos o passado e especulamos o futuro, mas apenas vivemos o presente. E é no presente que focarei a mensagem deste texto, é no presente que vocês a escutarão, é no presente que ela surtirá efeito.

Hoje estamos celebrando formandos e formadores. Sim, a turma, nossos pais, nossos professores e todos que dedicaram inúmeros esforços para formar isto agora. Olha que lindo: todos somos formadores e formandos do presente. 

Também, todos nós já estudamos. Talvez nem todos tiveram a possibilidade de uma educação básica, mas, com certeza, todos estudam sua realidade a partir de sua própria vivência. Olha que lindo novamente: todos temos conhecimento de nosso presente.

Percebam: não é em vão que escrevo na primeira pessoa do plural. Para que isto aqui fosse possível, nós todos nos empenhamos mutuamente. Quando digo que “temos conhecimento de nosso presente”, quero ressaltar que não devemos guardar nosso ser apenas para ele próprio. Em minha breve experiência de vida, percebi que a felicidade está na proximidade daqueles a quem amamos e com quem compartilhamos nossa existência. Exatamente isso nossos professores fizeram: com muito amor, não nos privaram daquilo que aprenderam. Pelo contrário, nos ensinaram tudo quanto lhes fora possível. Por isso, merecem nossos incessantes aplausos.

Nós ― agora me refiro à turma “pré-vest 2016” ― estamos diante de uma grande mudança. Talvez não a vida completamente, mas em muitos aspectos, seremos além daquilo que somos. Aliás, a cada hoje já não somos o que ontem éramos. Portanto, perante a profissão escolhida e na qual nos imaginamos felizes, deixo minha humilde sugestão para o nosso viver, que ainda nos surpreenderá com muitas alegrias e muitas tristezas imprevistas:

Que todo o nosso ser, que se construirá ao longo das incertas estradas do futuro, carregando as belas e fracassadas viagens do passado, jamais se restrinja apenas a si mesmo e jamais se esqueça de que a felicidade somente é plena e possível no presente. Não se angustie com o que deixou de ser concretizado ou com o que ainda há de ser realizado; sirva agora, ensine agora, ame agora, viva agora!
(Carta de Formatura do Pré-Vestibular, Matheus de Oliveira Fernandez,
Colégio Santa Mônica - Taquara, Rio de Janeiro, 27/11/2016)

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Consciência política

Este texto será repleto de indiretas. Até porque, se eu falar diretamente, amigos serão ofendidos quando, na realidade, esse não é meu objetivo. Apenas pretendo fazer uma crítica construtiva partindo de casos particulares a fim de ampliar para o panorama nacional.

Nas últimas eleições, mais tenho visto uma despropaganda política do que propriamente apoio ao candidato escolhido. Isto é, contra-argumentos infundados no lugar de uma argumentação válida. Ao invés de o indivíduo expor sua análise das propostas de seu candidato, compartilha posts com frases isoladas de candidatos adversários, distorcendo o discurso original. Não me foi incomum presenciar posts de esquerda compartilhados de páginas que apoiam a direita ou vice-versa. Também frequente foi presenciar discursos plausíveis tanto para a esquerda quanto para a direita, mas que eram repudiados só porque veio de cá ou de lá. Mais frequente ainda é a reprodução de opiniões alheias sem nenhum prévio conhecimento crítico do que se está afirmando.

Eu definitivamente respeito se você assumiu a esquerda ou a direita, contudo, não respeito posicionamentos equivocados. Política é coisa séria: saiba muito bem o que você afirma e a origem de sua afirmação!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Seja adequado

O que é ser bom aluno? O que é ser bom cidadão? O que é ser bom filho? O que é ser bom ser humano? Ser bom é ser adequado.

Você não é bom por ter a prudência de pensar em cada etapa de seu raciocínio para tornar válida sua tese ou reconhecer a essência de seu cálculo. Você não é bom por questionar o absurdo e prezar pelo correto. Você não é bom por respeitar a todos na mesma medida. Você não é bom por ser honesto, nem por manter-se íntegro, muito menos por acreditar na justiça, tampouco por confiar no ser humano.

Você só é bom se basear sua capacidade de reflexão sob a pressão do impulso. Você só é bom formulando teses fugazes, realizando cálculos velozes, propagando verdades instantâneas, cômodas e inconsistentes. Você é bom conforme a medida de sua velocidade, no quão útil e produtivo é para a sociedade. Você só é bom respeitando as autoridades, respeitando os mais velhos, os mais fortes, respeitando “quem tem mais moral”. Você é bom sendo malandro, oportuno, sendo o “fodão”. Você só é bom se corresponder com a exigência alheia, se for o que deve ser, o que querem que seja.

Sua individualidade? Seus sentimentos? Seus pensamentos? Quem se importa? Serão úteis? Não? Jamais desperdice tempo com eles, então. Aliás, você não tem tempo. Seu escasso tempo deve ser convertido em produtividade constante. Quem é você? Você não é você. Você é sua função, você é seu cargo, você é seu teste vocacional. Você apenas é formado de resultados. Você é aquilo que produz, aquilo que agrada. Você deve se adequar para se afirmar. Jamais seja você.