terça-feira, 20 de junho de 2023

Meritocracia

Você é livre para gostar ou não da meritocracia e acreditar que alcançou o sucesso pelo seu esforço. Apenas acho que é de tamanha crueldade julgar que o pobre é pobre por falta de talento. Duvido muito que Jesus culparia os pobres por sua miséria. Em verdade penso, se não estou enganado, que Ele iria ao seu resgate.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Sobre ser adulto e amadurecer

Ficar adulto é curioso. Estava relendo alguns textos deste próprio blog, textos que refletem uma mente adolescente que, embora atordoada, não tinha medo de se expressar. A fase adulta (ao menos a minha) traz o lamento e a desistência de sonhos: o encarar da realidade que desmancha aspirações mais jovens. Tudo isso é uma forma bem reduzida do que dolorosamente significa amadurecer. E até mesmo no amadurecimento existem desigualdades invisíveis, frente àqueles que possuem privilégios psíquicos sem ao menos se dar conta ou valorizar. Ser adulto e amadurecer significam nada além disso: crescer e enlouquecer entre os sãos. Reconhecer fragilidades que nem sempre existiram e que, muito provavelmente, foram criadas por si próprio  um fatídico e irônico mecanismo de autodefesa.

É curioso pensar que existem muitos adultos que ainda são crianças, relutam para manter suas estruturas infantis de interpretação dos fatos, relutam a enxergar a si mesmos e àquilo que está tão óbvio e claro à sua frente: jamais! É preferível infringir tormento a todos em seu redor a reconhecer sua clarividente tolice. Possuir a imbecilidade em seu mais alto nível é o que procuram tais infelizes almas: resistir a encarar os fatos, resistir ao evidente, ou melhor, resistir ao amadurecimento.

Ser adulto e amadurecer, portanto, envolvem essas irônicas vias de construir adultos totalmente distintos e despreparados para a vida. Adultos que não se percebem adultos; adultos que evitam ser adultos; adultos que deveriam ser adultos; adultos que infelizmente são adultos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Otimismo

O otimismo, olhando de fora, parece uma espécie de estabilidade mental. No entanto, é um profundo grito de desespero diante de uma realidade da qual suplicamos por fugir, um grito que ecoa pelos solitários corredores do universo com a ainda mais triste esperança de talvez ser ouvido por um Deus, que se mantém em insensível silêncio.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Conclusões bíblicas

Sofro, logo existo. Da dor nascemos, na dor vivemos e na dor morremos. Deus quis assim.

É muito injusto os teólogos atribuírem a nós a culpa pela dor e pelos males terrenos — mesmo quando dividem a autoria com Satanás. Biblicamente e teologicamente, o sofrimento é consequência da desobediência humana, uma vez que nos deixamos seduzir pelo mal, na pele de nossos primeiros ancestrais, Adão e Eva. E ainda há dogmas dos quais não podemos negar:

1. Deus permite o mal.
2. Deus permitiu a existência de Satanás bem como de suas ações.
3. Deus é onipotente e suprainteligente. Deus não é mongoloide.
4. Deus e Satanás fazem das nossas almas um cassino de apostas.
5. A dor é um mecanismo cerebral inato.

Não precisa ser formado em Neurociência para notar que já nascemos propensos a sentir dor e sofrer. Um bebê é responsável por nascer chorando? Como podemos ser culpados por algo que já nasce conosco, que é intrínseco à nossa constituição biológica? — a qual, inclusive, foi projetada por Deus. Se seu filho nasceu com diabete, ele tem culpa por isso? Faz sentido herdarmos as consequências do “pecado original”, do delito de um ancestral? Seu tataravô matou alguém, é você que vai preso?

Deus é tão arrogante que, sob a premissa do livre-arbítrio, culpou-nos pelo fracasso de seu projeto e, não satisfeito, ainda colocou o sofrimento como passaporte para uma salvação tediosa — que, conforme interpretações bíblicas, consiste em passar a eternidade louvando a glória de Deus, almas livres acorrentadas a orar eternamente.

Além da onipotência e onisciência, a tradição medieval também defende, como atributos de Deus, a onipresença, da qual se deduz a equidistância de Deus em relação ao tempo, isto é, Deus observa com clareza o passado, presente e futuro simultaneamente. Tendo tamanhos atributos e diante do sofrimento e da atual podridão humana, prefiro inferir que Deus é oninegligente a concluir que Ele não teve visão de longo prazo na concepção do universo ou que simplesmente sente prazer em disputar nossas almas com Satanás.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Imposição da Revivência

Se não me engano, apenas um contrato importante (RioCard da Vanguarda) joguei fora. Os demais eram contratos diários dispensáveis. E caso algo importante tenha sido descartado, devo lembrar que atividades, jornadas e recompensas é o que não falta em Destiny 2. Preciso aprender a lidar com a perda/frustração/imperfectibilidade com leveza e naturalidade. É normal e está tudo bem não captar a totalidade fenomenológica (detalhes e experiências) dentro de um game, ainda mais se tratando de Destiny. Reflita com leveza e carinho.

Do sentimento de não suficientemente ter absorvido o conteúdo oferecido (que modestamente chamamos de aproveitar/experienciar um jogo, filme ou série), vem o sentimento de culpa, do qual suscita a necessidade de criar uma nova conta, zerar novamente ou reassistir/reler diálogos, clipes e cutscenes. E tal culpa insistirá em fisgar a consciência até que a revivência do que já foi vivido seja imposta (reciclagem fenomênica). E em meio a relutância, o caótico ciclo do desespero se instaura.

Como evitar tal ciclo? Como lidar com a fisgada da culpa? Há o que se culpar?

A culpa vem de um sentimento de desconformidade. O sentimento de que eu não estava agindo da maneira certa. No caso, não aproveitando quanto deveria ou não prestando a atenção necessária. O sentimento de que eu estava desperdiçando, o medo de perder farelos, a sufocante necessidade de absorver totalidades.

Cabe ressaltar que está longe de constituir uma necessidade e, sim, mais próximo a uma irracional obrigação à qual sempre me imponho. Vale a pena se obrigar a algo que, se não beira o impossível, ao menos exigiria forças além do meu confortável/saudável alcance? E quando, por razões tanto óbvias, não cumpro (correspondo ao exigido), é justo me culpar?

terça-feira, 28 de maio de 2019

Pessimismo e Otimismo: ilusões da inércia

Ultimamente, lendo alguns trechos de cartas pessoais de Freud, realmente me admirava acompanhar a mordacidade de seu pessimismo. Dava prazer de ler palavras tão vivas, tão carregadas de experiência, poucas palavras que socavam o estômago dos desavisados e refletia a vida daqueles que já perderam a confiança no futuro.

Já C. S. Lewis? Até pouco tempo eu o tinha como um bonachão. Deixou-se seduzir por Deus e logo começou a ver cor em tudo. E é comum considerarmos as formas coloridas o caminho mais fácil. Até que também tive a oportunidade de ler trechos de cartas da sua juventude 
— época em qual ainda era ateu. Impressionou-me notar nas palavras do jovem Lewis o mesmo peso existencial trágico dos socos de Freud. Ressalto, ainda, que, mesmo nas cartas mais íntimas, nossos paradoxos internos e os sentimentos mais profundos e distantes se mantêm fugazes. É muito difícil entender o que sentimos e, mais ainda, expressá-lo sem contradições.

Ler trechos da fase pessimista desses grandes autores e pensadores me fez lembrar este blog. Um adolescente mimado de ensino médio chorando em pesadas palavras por um mundo cruel e injusto. Quer escrever bem? Quer fazer um texto foda? Seja pessimista. Os autores que mais nos impactam são justamente aqueles que sabem fazer tragédias desesperadoras de suas próprias palavras. Pensei em citar alguns filósofos, mas a maioria dos Modernos e Contemporâneos compartilham do mesmo hábito literário: o drama existencial. Tudo isso me fez notar que o pessimismo é tão ilusório quanto colorir o mundo de boas crenças e que, sendo pessimista, pensando positivo, ignorando suas dores mais profundas ou colocando tamanho peso existencial em cada experiência, de qualquer modo, chorar pela realidade não faz dela menos trágica nem menos suportável. O pessimismo ou o otimismo são igualmente alienantes, rotas mais fáceis que nos confortam na dor. Difícil mesmo é encarar a realidade, manter-se erguido, acreditar e fazer alguma coisa para mudar.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Um texto e uma vida sem conclusão

Há vinte anos atrás, eu nasci. Fui crescendo e aprendendo a viver. Quantas formas de vida me foram empurradas? Quantos desejos me foram vendidos? Quantos sonhos, quantas mentiras... Assim como eu, tenho certeza que todas as pessoas nascem sem nada saber da existência. Nascem sem conhecer seus propósitos, sua missão ou seu lugar neste mundo ― se é que nascemos com algum. Todos nós nascemos vazios e passamos o resto da vida buscando preencher o que nem sabemos e, mesmo assim, insistimos em fingir saber das coisas. Conversamos como se soubéssemos o significado e a origem das palavras que usamos. Compartilhamos, curtimos e comentamos como se houvesse algum propósito nisso. Damos opiniões, avaliamos as atitudes dos outros, julgamos escolhas... Opinamos e fingimos ter certeza das coisas, presunçosamente convictos de que isso irá mudar o rumo do mundo. Elegemos candidatos que mal conhecemos. Lemos matérias e notícias suspeitosas. Passamos mais da metade da vida forçando nossos olhos, multilando nossa sanidade para absorver conteúdos que, logo mais, nos trairão ― isso se chama conhecimento. Compramos ― literalmente compramos ― mentiras. “O que você será no futuro?” ― aí reside a mais desumana fraude vendida a uma criança.

Pior do que vender falsos sonhos e conquistas vazias, é vendê-los com orgulho. E, claro, pôr no orgulho a veste de educação, para manter o ego intacto. Essa é a sociedade, assim é a humanidade: (1) seres humanos nascem sem nada saber; (2) vendem o não-saber para você; (3) você obviamente fracassa tentando praticar o que não sabe; (4) por fim, lhe culpam pelo fracasso. Fracassados, culpados e sem propósito, corremos atrás de preenchimentos vazios ― como religião, drogas e sexo. Pronto. Já entramos no ciclo vicioso da história da humanidade: comprar mentiras [formas de existir] e lançá-las ao combate para ver qual é mais convincente.