quarta-feira, 4 de março de 2020

Conclusões bíblicas

Sofro, logo existo. Da dor nascemos, na dor vivemos e na dor morremos. Deus quis assim.

É muito injusto os teólogos atribuírem a nós a culpa pela dor e pelos males terrenos — mesmo quando dividem a autoria com Satanás. Biblicamente e teologicamente, o sofrimento é consequência da desobediência humana, uma vez que nos deixamos seduzir pelo mal, na pele de nossos primeiros ancestrais, Adão e Eva. E ainda há dogmas dos quais não podemos negar:

1. Deus permite o mal.
2. Deus permitiu a existência de Satanás bem como de suas ações.
3. Deus é onipotente e suprainteligente. Deus não é mongoloide.
4. Deus e Satanás fazem das nossas almas um cassino de apostas.
5. A dor é um mecanismo cerebral inato.

Não precisa ser formado em Neurociência para notar que já nascemos propensos a sentir dor e sofrer. Um bebê é responsável por nascer chorando? Como podemos ser culpados por algo que já nasce conosco, que é intrínseco à nossa constituição biológica? — a qual, inclusive, foi projetada por Deus. Se seu filho nasceu com diabete, ele tem culpa por isso? Faz sentido herdarmos as consequências do “pecado original”, do delito de um ancestral? Seu tataravô matou alguém, é você que vai preso?

Deus é tão arrogante que, sob a premissa do livre-arbítrio, culpou-nos pelo fracasso de seu projeto e, não satisfeito, ainda colocou o sofrimento como passaporte para uma salvação tediosa — que, conforme interpretações bíblicas, consiste em passar a eternidade louvando a glória de Deus, almas livres acorrentadas a orar eternamente.

Além da onipotência e onisciência, a tradição medieval também defende, como atributos de Deus, a onipresença, da qual se deduz a equidistância de Deus em relação ao tempo, isto é, Deus observa com clareza o passado, presente e futuro simultaneamente. Tendo tamanhos atributos e diante do sofrimento e da atual podridão humana, prefiro inferir que Deus é oninegligente a concluir que Ele não teve visão de longo prazo na concepção do universo ou que simplesmente sente prazer em disputar nossas almas com Satanás.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Pessimismo e Otimismo: ilusões da inércia

Ultimamente, lendo alguns trechos de cartas pessoais de Freud, realmente me admirava acompanhar a mordacidade de seu pessimismo. Dava prazer de ler palavras tão vivas, tão carregadas de experiência, poucas palavras que socavam o estômago dos desavisados e refletia a vida daqueles que já perderam a confiança no futuro.

Já C. S. Lewis? Até pouco tempo eu o tinha como um bonachão. Deixou-se seduzir por Deus e logo começou a ver cor em tudo. E é comum considerarmos as formas coloridas o caminho mais fácil. Até que também tive a oportunidade de ler trechos de cartas da sua juventude 
— época em qual ainda era ateu. Impressionou-me notar nas palavras do jovem Lewis o mesmo peso existencial trágico dos socos de Freud. Ressalto, ainda, que, mesmo nas cartas mais íntimas, nossos paradoxos internos e os sentimentos mais profundos e distantes se mantêm fugazes. É muito difícil entender o que sentimos e, mais ainda, expressá-lo sem contradições.

Ler trechos da fase pessimista desses grandes autores e pensadores me fez lembrar este blog. Um adolescente mimado de ensino médio chorando em pesadas palavras por um mundo cruel e injusto. Quer escrever bem? Quer fazer um texto foda? Seja pessimista. Os autores que mais nos impactam são justamente aqueles que sabem fazer tragédias desesperadoras de suas próprias palavras. Pensei em citar alguns filósofos, mas a maioria dos Modernos e Contemporâneos compartilham do mesmo hábito literário: o drama existencial. Tudo isso me fez notar que o pessimismo é tão ilusório quanto colorir o mundo de boas crenças e que, sendo pessimista, pensando positivo, ignorando suas dores mais profundas ou colocando tamanho peso existencial em cada experiência, de qualquer modo, chorar pela realidade não faz dela menos trágica nem menos suportável. O pessimismo ou o otimismo são igualmente alienantes, rotas mais fácies que nos confortam na dor. Difícil mesmo é encarar a realidade, manter-se erguido, acreditar e fazer alguma coisa para mudar.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Um texto e uma vida sem conclusão

Há vinte anos atrás, eu nasci. Fui crescendo e aprendendo a viver. Quantas formas de vida me foram empurradas? Quantos desejos me foram vendidos? Quantos sonhos, quantas mentiras... Assim como eu, tenho certeza que todas as pessoas nascem sem nada saber da existência. Nascem sem conhecer seus propósitos, sua missão ou seu lugar neste mundo ― se é que nascemos com algum. Todos nós nascemos vazios e passamos o resto da vida buscando preencher o que nem sabemos e, mesmo assim, insistimos em fingir saber das coisas. Conversamos como se soubéssemos o significado e a origem das palavras que usamos. Compartilhamos, curtimos e comentamos como se houvesse algum propósito nisso. Damos opiniões, avaliamos as atitudes dos outros, julgamos escolhas... Opinamos e fingimos ter certeza das coisas, presunçosamente convictos de que isso irá mudar o rumo do mundo. Elegemos candidatos que mal conhecemos. Lemos matérias e notícias suspeitosas. Passamos mais da metade da vida forçando nossos olhos, multilando nossa sanidade para absorver conteúdos que, logo mais, nos trairão ― isso se chama conhecimento. Compramos ― literalmente compramos ― mentiras. “O que você será no futuro?” ― aí reside a mais desumana fraude vendida a uma criança.

Pior do que vender falsos sonhos e conquistas vazias, é vendê-los com orgulho. E, claro, pôr no orgulho a veste de educação, para manter o ego intacto. Essa é a sociedade, assim é a humanidade: (1) seres humanos nascem sem nada saber; (2) vendem o não-saber para você; (3) você obviamente fracassa tentando praticar o que não sabe; (4) por fim, lhe culpam pelo fracasso. Fracassados, culpados e sem propósito, corremos atrás de preenchimentos vazios ― como religião, drogas e sexo. Pronto. Já entramos no ciclo vicioso da história da humanidade: comprar mentiras [formas de existir] e lançá-las ao combate para ver qual é mais convincente.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Nunca experimentamos o presente


Estamos sempre ansiosos com o futuro e insatisfeitos com o passado. E o presente? Sempre perdido e confuso entre essas duas instâncias mais frustrantes. O presente, pura espontaneidade, é sensível; jamais processado pelo cérebro enquanto tal. A partir do momento em que o presente é sentido, já é passado quando suas informações alcançam a mente. Sempre o presente é processado como passado no cérebro, o qual, a partir do mesmo, concebe e projeta vivências irrealizadas no presente como futuro.

Mais radicalmente, há apenas pretérito circulando pelos neurônios. Não experimentamos o presente nem mesmo o futuro. Vivemos sempre acorrentados biologicamente ao passado.

Menos radicalmente, a memória arquiva o passado, a mente processa suas informações, a imaginação concebe futuros possíveis irrealizados e ao presente resta apenas o inconsciente ― aqueles sentidos obscuros dos quais não temos controle.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Última carta para Deus

Senhor Deus,

Já perdi a capacidade de conduzir pensamentos apenas pelo processamento interno independente da mente. Desaprendi a orar. Desaprendi a discernir quais pensamentos são conclusíveis e quais são signo do caos. Desaprendi a pensar. Desaprendi a sorrir. Desaprendi a viver. Desaprendi e desaprendi. Minha vida, pelo menos aos últimos dias ou estes como efeitos de uma longa linha causal desde o meu nascimento, tem sido puro desaprendizado. Tenho a intuição de que, pelo menos até 2015, minha vida tem sido uma louvável esponja, uma intensa absorção ordenada de conhecimentos incessantes. Já a partir dos anos mais recentes, essa esponja se rasgou. Os pedaços... Já não sei onde estão. O conteúdo destes pedaços se encontra ainda mais confuso. Meus atos, meu modo de agir, minha postura diante de tudo que observo, minha postura diante do que aconteceu, do que acontece e do que acontecerá, minha postura mudou. Eu não entendo tudo, não entendo nada. O Senhor sabe de tudo que estou falando. O Senhor acompanhou cada pensamento meu, cada ação, cada decisão e o desenrolar destes elementos ao longo da minha vida. É por isso que estou aqui, perdido, confuso, descrente, crente, triste, feliz, incerto, com medo, insatisfeito, tentando paciência, externamente contraído, interiormente barulhento. Eu não sei: expressão frequente em cada intérmino de pensamento, expressão intensamente recorrente, expressão da qual não consigo me libertar, signo de uma incapacidade adquirida. Não sei: a mais frustrante das desesperanças.

Por que parei de rezar o  terço? Por que tenho medo de falar o que penso em primeira instância? Por que me freio tanto? Por que acabei de esquecer o que antes pensei? Por que estou tão preocupado em encontrar respostas? Venho a culpar a ausência de respostas, esta o suposto fardo que me impede de viver. Será que com todas as respostas seria mais fácil viver? O que preciso para viver? Questões me tormentam, me travam, bloqueiam, impedem-me de seguir andando. Questionar já é olhar para trás. Avançar de olhos vedados é risco, certeza de problemas. Olhar para trás a fim de evitar os problemas dos passos livres e despreocupados é também problema. Dilema. O que fazer? Qual decidir? Ainda bagunçado, porém intuitivamente compreendido. Elementos pontuais, dispersos pela memória consciente e inconsciente. A vida segue em contínuo dilema.

No lugar de tantas questões, uma emerge sobre todas: o que o Senhor quer de mim? “Amor” ― diz o Senhor. Tudo bem, me contentarei com tal resposta. Deus fala por meio de sinais misteriosamente sutis. “Amor”, tarefa difícil essa que Deus me propõe. “Amor”, como amar? Por quais caminhos amar? Com quais palavras amar? Com quais pensamentos amar?

Matheus, você realmente está escrevendo para Deus esta carta? Ou está pensando em postar no blog? Postar diretamente nestas palavras ou adaptá-las? Adaptar, aproveitar miúdos, perverter sua fé para ganhar fama?

Ora, o que faço? Escondo-me, mais uma vez? “Faça aquilo através do qual o amor seja mais explícito” ― talvez diz o Senhor. Momento blasfêmia, também talvez. Entre blasfêmias e versículos, entre heresia e fé, entre incerteza e certeza se encontram os leigos cristãos. Se há cristãos certos de seus caminhos, não os invejo: observo de longe. Já a mim? Sempre me encontrei entre nos entres. Certamente não escolhi ter este tipo de estrutura mental-espiritual indecisa.

Juro que acabei de perguntar: “Deus, posso postar este texto?”. Na ausência da resposta ― da qual Deus não tem culpa nenhuma, pois não estou aqui para questionar seus desígnios ―, pensei: “O que Jesus faria? Jesus postaria este texto?”. Uma intuição me diz que é melhor preservá-lo. No momento certo, minha alma será exposta ao mundo: não agora. “Paciência” ― Deus me diz. Vou confiar em ti, Deus. Muito obrigado por estar aqui. Amém.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Cultos e Burros

Por que os cultos nunca querem discutir sobre aquilo que muito sabem? Será medo de descobrir que não se sabe? Será orgulho a não perceber que o que tanto se sabe se forçou saber?

De qualquer modo, os cultos querem negar sua própria natureza: o ser humano nasce burro e morre não tão diferente disso. Aliás, o burro é um animal que não se preocupa com o saber e, portanto, não precisa fingir que sabe. Ele também não se frustra quando a realidade não condiz com suas especulações pessoais disfarçadas de conhecimento. Muito menos sente a necessidade de impor seu modo de pensar ao pasto diante da incapacidade de aceitar que talvez o erro seja seu e não do pasto.

Nesse sentido, o burro é muito mais tolerante e maduro do que muitos militantes de esquerda e de direita, cultos e intelectuais.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sexualidade e Castidade

1. Ao longo do tempo, tenho observado que o amor é a centralidade das nossas ações. Deus é amor e, por Sua própria vontade, convida-nos a amar a todo instante.

2. Sexualidade entendo por "motor psíquico" que conduz todas as nossas relações: amizade, matrimônio, sacerdócio, professor-aluno... É um termo complexo em Psicologia e ainda mais impalatável a alunos cristãos ― como eu, cristão cético e teimoso aluno.

Quando conduzimos nossa sexualidade apenas pela moral (“obediência”), isso gera problemas. Quando a conduzimos apenas pelos impulsos (“desejos carnais”), isso também gera problemas. Logo, entre a moral e os impulsos, nós (seres de alma e corpo) devemos pôr o AMOR como condutor de nossa sexualidade e das nossas ações.

Exemplo: não devo cultivar castidade apenas por obediência (ou por questões morais) tampouco me render aos impulsos carnais. É por amor que devo caminhar! Por amor a Deus, por amor a mim mesmo e por amor ao próximo que devo ser casto.

Fico com o pé atrás de quem tem muita moral e pouco amor. Já fui alguém que compulsivamente “moralizava” tudo. Com o tempo, percebi que “o amor é o pleno cumprimento da Lei” (Romanos 13, 8-14. Bíblia Sagrada). Vejo muitos padres, pastores e teólogos que tem o discurso carregado de palavras moralmente impecáveis e pessoalmente insensíveis. E pregar a verdade sem amor também é pecado. É aí que notamos alguns raros missionários que conseguem sensibilizar suas palavras com maior proximidade aos fiéis.

Se bem percebermos, Cristo pregava a Boa Nova fitando os olhos de seus ouvintes. O que isso quer dizer? Que Cristo era sensível e falava de perto. Posso estar muito enganado, mas sinto que muitos padres e pastores falam de Cristo com enorme distância. Moralmente impecável, pessoalmente distante.


Portanto, ver a sexualidade pela ótica da moral é observá-la de longe. Ver a sexualidade pela ótica carnal é rebaixá-la. Sinceramente tenho poucas respostas e pouquíssimas certezas sobre a sexualidade, porém intuo que deve ser analisada na vivência, mais de perto, com amor.


Recomendação de leitura:
Os padres e a sexualidade na visão de um Psicoterapeuta
http://www.vidapastoral.com.br/artigos/ministerio-presbiteral/os-padres-e-a-sexualidade-na-visao-de-um-psicoterapeuta/